REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religi�es e Ci�ncias

ISSN 2182-147X
NOVA S�RIE

 

 

 






Jos� Pinto Casquilho.....

 Jos� Bonif�cio – notas para uma pesquisa

 

Resumo

Jos� Bonif�cio nasceu portugu�s e morreu brasileiro, cidad�o do Imp�rio. Foi um pol�tico not�vel a ponto de ser nomeado como ‘patriarca da independ�ncia’ do Brasil. Era um naturalista e humanista de forma��o, a que se associava uma vis�o inspirada no despotismo esclarecido. A envergadura do seu pensamento e da sua agenda pol�tica � tal que foram sucedendo ao longo de dois s�culos reformas que preconizava, e ainda hoje tem aspectos que est�o na ordem do dia. O objetivo deste trabalho � embasar um projeto de pesquisa centrado no peso da componente conservacionista dos recursos naturais, nomeadamente florestais, na agenda pol�tica de ent�o.

Abstract

Jos� Bonif�cio was born Portuguese and died Brazilian citizen of the Empire. He was a remarkable politician, appointed as ' Patriarch of independence ' of Brazil. As a naturalist and humanist he combined a vision inspired by the enlightened despotism. The scale of his thinking and his political agenda are such that they were reforms succeeding over the last two centuries which he recommended, and still today there are relevant aspects. The objective of this paper is opening a research project focused on the weight of the conservationist component of natural resources, concerning forest resources mainly, in the agenda of Bonif�cio.

R�sum�

Jos� Bonif�cio est n� portugais et est mort br�silien, citoyen de l'Empire. Il a �t� un homme politique remarquable � tel point qu’il est nomm� `patriarche de l'ind�pendance' du Br�sil. C'�tait un naturaliste et un humaniste de formation, � laquelle s'associait une vision inspir�e dans le despotisme �clairci. L'envergure de sa pens�e et de son agenda politique est tel qui ont r�ussi au long de si�cles des r�formes dont il faisait l'�loge et encore aujourd'hui il y a des aspects que sont dans l'ordre du jour. L'objectif de ce travail est baser un projet de recherche centr� dans le poids de la composante de conservation des ressources naturelles, notamment foresti�res.

N�s n�o reconhecemos diferen�as nem distin��es na fam�lia humana: como brasileiros ser�o tratados por n�s o china e o luso, o eg�pcio e o haitiano, o adorador do sol e o de Mafoma.

Jos� Bonif�cio de Andrada e Silva

Faz anos que ouvi falar de Jos� Bonif�cio. H� pouco tempo chegou-me uma men��o directa que me instigou: esbo�ar o vetor da agenda pol�tica de Jos� Bonif�cio, datada de cerca de 1821 – depois de ter retornado ao Brasil em 1819, com 56 anos de idade - nas suas componentes civilizadoras, seguindo o novo paradigma institu�do pelo marqu�s de Pombal: mudar evangelizar em civilizar e proceder. E de entre o contexto, procuraria focar os enunciados florestais e avaliar o peso relativo no vetor transformador. Vector � uma palavra derivada dos termos latinos vehere, vectum, que se reportam a mensageiro. N�o sei se a melhor maneira de estruturar a agenda pol�tica de Jos� B. ser� um vetor ou um tensor.

Acho as matas tropicais uma beleza. Ocorre-me, faz muitos anos, que fui ao pal�cio do Ramalh�o onde morara Carlota Joaquina - exilada da corte por recusar jurar a Constitui��o de 1822 -, e l�, na sala do fundo, estavam imagens da mata atl�ntica estucadas at� ao tecto, com um encantamento enebriante. Disseram-me que os frescos poderiam ser atribu�veis a um dos decoradores de Queluz, assunto que nunca fui aprofundar. Fiquei tonto a andar �s voltas olhando os enleados nas paredes acima com cip�s e brom�lias imagin�rias, que ainda hoje revejo. Depois j� tive oportunidade de toc�-las de verdade, atl�ntica ou amaz�nica.

Deriva

Jos� Bonif�cio de Andrada e Silva, nasceu Jos� Ant�nio em 13 de Junho de 1763, dia de Santo Ant�nio, filho de uma das fam�lias de comerciantes mais ricas de Santos, na regi�o de S�o Paulo, Brasil. Depois trocou o nome pelo de seu pai, coronel.

Nasceu portugu�s e morreu brasileiro, cidad�o do imp�rio, tendo-lhe sido atribu�da mais tarde a designa��o de ‘Patriarca da Independ�ncia’, uma men��o que n�o deixa d�vidas sobre a marca deixada na Hist�ria do Brasil e de Portugal. O Brasil era reino aut�nomo desde 1815, alcan�aria a independ�ncia como imp�rio em 1822, tomando o Ipiranga como marco, antecedido pelo Dia do Fico a 9 de Janeiro de 1821 e finalizando combates com portugueses a 2 de Julho de 1823, na Bahia.

Jos� Bonif�cio era um homem multi-versado, combativo e diligente, de escrita treinada em v�rios dom�nios e uma verve acutilante. A principal fonte em papel que consultei foram in�ditos, transcritos, reunidos (e comentados) por Miriam Dolhnikoff [1]  e designados no conjunto como Projetos para o Brasil. Num de seus escritos Bonif�cio faz um elogio da vontade algo schopenhaureano, ora leia-se:

A vontade � a for�a primordial verdadeira do universo, a que s� pode morar nos grandes esp�ritos. Querer, querer outra vez, e querer sempre � o atributo das grandes almas, e da verdadeira masculinidade. A raz�o deve ficar entre esta vontade e os apetites, e da sua rec�proca afinidade, coordena��o e subordina��o depende tudo o que h� de sublime neste mundo humano.(...)

Da sua for�a de vontade e perseveran�a atestam os m�ltiplos graus acad�micos, e a quantidade de t�tulos e fun��es que desempenhou: naturalista, pesquisador, cientista, acad�mico visitante, lente, director do Real Laborat�rio da Casa da Moeda, secret�rio da Academia das Ci�ncias de Lisboa, combatente, tenente-coronel, desembargador, intendente-geral do Reino, ministro, banido e exilado, tutor de Pedro II, preso e julgado, e sei l� que mais [v. 2].

Na �rea de pesquisa da mineralogia �-lhe atribu�do um papel importante na identifica��o, estudo ou classifica��o de quatro minerais, num caminho que se seguiu na descoberta do l�tio. Jos� Bonif�cio foi ma�on, at� foi gr�o-mestre em 1822 do Grande Oriente do Brasil, embora aparentemente sai de seguida e funda outra loja: o Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz. Pouco tempo depois � nomeado ministro do Imp�rio. Em 1823, com sessenta anos, � banido, deportado para a Europa por seis anos, mas retorna em 1829, e fica tutor do imperador Pedro II em 1831, a convite de Pedro de Alc�ntara (imperador Pedro I do Brasil, rei Pedro IV de Portugal) com quem antes se tinha incompatibilizado. Nesse ano tamb�m � empossado como deputado (suplente) pela Bahia e em 1833 fica em pris�o domicili�ria por conspira��o e perturba��o da ordem p�blica. � absolvido em Mar�o de 1835 e falece em Abril, em Niter�i. Aparentemente ter� conhecido bem na sua pr�pria vida o exerc�cio de compreens�o da m�xima herm�tica e alqu�mica, depois ma��nica, a lei da analogia: tanto em cima como em baixo.

O retrato de Jos� B., na figura��o de tutor empreendida por Benedito Calixto, mostra um disc�pulo do legado do marqu�s de Pombal: cruz de Cristo not�ria, espadim de corte, m�o direita soerguida, olhar introspetivo, s�rio, pena e papel, ... O despotismo esclarecido tinha a sua marca no naturalista e no humanista.

 Jos� Bonif�cio inseria-se numa linhagem intelectual iniciada pelo marqu�s de Pombal em Portugal, com ra�z nas Luzes, no naturalismo e na linguagem ma��nica, que tem um marco imprescind�vel em Domingos (Domenico Agostino) Vandelli, - mestre de Bonif�cio com quem vem a estabelecer depois uma rela��o familiar -, contempor�neo e orientador das viagens do bahiano Alexandre Rodrigues Ferreira, um naturalista portugu�s que empreendeu um reconhecimento not�vel por vastas �reas do Brasil [v. 3].

Andrada e Silva, figurado por Benedito Calixto (r.  1902), Museu Paulista (fonte:Wiki) - Jos� Bonif�cio: 1831
 

J� em 1789, ano da revolu��o Francesa e em que a rainha D. Maria I refaz os s�mbolos de representa��o dos reis de Portugal, Vandelli fizera publicar na Academia Real das Ci�ncias pelo menos quatro mem�rias, uma designada como: Mem�ria sobre as produ��es naturais do Reino, e das Conquistas, primeiras mat�rias de diferentes f�bricas, ou manufacturas [v. 4, 5].

Bonif�cio, antes Ant�nio, mas em qualquer caso Jos�, nasceu no reinado de d. Jos�, primeiro e �nico rei de seu nome de Portugal (r: 1750-1777), Jos� Francisco..., nomes com forte remiss�o cat�lica a que se juntava o t�tulo de sua majestade fidel�ssima (SMF) que Jo�o V, seu pai, tinha obtido junto do papa Bento XIV, em 1748, para os reis de Portugal, ap�s a institui��o do Patriarcado de Lisboa cujo titular podia passar a reconhecer o t�tulo real.

T�picos do programa iconogr�fico da est�tua equestre de D. Jos�

Se nos queremos colocar no esp�rito da �poca vivido pelas elites talvez o melhor s�mbolo sint�tico seja a est�tua equestre de D. Jos� na Pra�a do Com�rcio em Lisboa, antiga porta de entrada na “capital serpentina” – e maior marca da reconstru��o pombalina do Terreiro do Pa�o derrubado pelo terramoto de 1755 -, como pra�a monumental enquadrada no programa iconogr�fico da alegoria do Arco da Rua Augusta.

Vale aqui recordar que o signo comporta uma forma e uma injun��o [6], o que tanto se aplica a s�mbolos isolados como ao sema em que participam, sejam sintagmas de pedra ou de bronze. Recorde-se que, quando a capacidade de aplica��o ou a referenciabilidade das mensagens deriva simplesmeente de seu poder de sugest�o que brota de seus aspectos sensoriais, qualitativos, estaremos falando de �cones [7] e, em qualquer caso, servir de alguma coisa como signo � reportar-se a uma dada cultura [8].

A est�tua, de bronze sobre pedestal de pedra, foi inaugurada em 1775 com autoria de Machado de Castro, segundo esbo�os de Eug�nio dos Santos, considerada pioneira no seu estilo em terras lusitanas e no imp�rio portugu�s.  O marqu�s de Pombal espreita no medalh�o de bronze sob as armas reais na est�tua do rei, e tamb�m est� representado de corpo inteiro numa das figuras da alegoria do arco triunfal das virtudes da R. Augusta. O cavalo do rei passa imp�vido sobre as serpentes da ignor�ncia, tamb�m dizem do conhecimento, ilustrando a natureza paradoxal da verdade.

E no topo do arco triunfal da R. Augusta, a Gl�ria coroa o Valor e o G�nio, na interpreta��o mais corrente, ou Cibele recompensa Apolo e Minerva, a luz e o conhecimento, noutra, ou ainda, a Ib�ria coroa a p�tria e o anjo S. Miguel, patrono de Portugal. Haver� outras, em qualquer caso remetem para uma tr�ade que aponta para o c�u, e inversamente desce como uma consagra��o dentro de uma numerologia: 1 rei a cavalo como figura imperial, quase um centauro alado no enquadramento, 3 virtudes, 4 pilares da p�tria feitos homens (entre os quais o marqu�s), e 2 rios que amparam o conjunto.

 
 

Est�tua equestre de D. Jos� em Pra�a do Com�rcio/ Terreiro do Pa�o (foto: a.)

 

Enquadramento da est�tua equestre no arco triunfal (foto: a)


Os s�mbolos podem ser arbitr�rios ou motivados, aqui a motiva��o � a simb�lica imperial de ra�z cl�ssica e romana - imperador originalmente queria dizer um magistrado investido de comando militar por mandato divino ou de outra for�a superior. J� Or�sio de Braga (sec. VI), referia que o imp�rio (romano) surgia como a garantia pol�tica da paz e da unidade, ou como lugar da reuni�o dos homens, e � assim que a id�ia de imp�rio perdurar� na Europa [v. 9].

O rei � representado com o bast�o de comando indicando uma dire��o, um vetor, encimado pelo Olho da Provid�ncia, um reminiscente do Olho de H�rus integrado no radiante do Esp�rito Santo. No ombro direito transporta uma fivela com um simulacro do Braganza e sob o manto espreita a cruz de Cristo. O olhar do rei e a indica��o do ceptro apontam genericamente Sul, puxando alguns graus a Oeste, numa rota misteriosa. O cavalo traz nos arreios do peito a r�plica de um diamante mais tarde chamado em Fran�a de (novo) Espelho de Portugal [v. 10], que provavelmente tamb�m ser� conhecido por Regente. Que mist�rio se esconder� no brilho do olhar infinitivo do rei?
 

Est�tua equestre de D. Jos� – porm. (foto: a.)

 

    .      Valores

O Valor e o G�nio eis pois os valores superiores em que Bonif�cio foi orientado, recordando que se nomeia a val�ncia como o valor do valor [11], que numa primeira acep��o remete para valentia, e posteriormente para o conceito de liga��o qu�mica simulando o plano da articula��o do sentido em geral de �m signo. Como m�todo, refere-se que Bonif�cio utilizava sobretudo o m�todo de an�lise das regularidades permanentes, ou est�ticas, que emanava da matriz baconiana que tinha como fun��o resolver problemas pr�ticos, numa vis�o onde o conhecimento cient�fico tamb�m servia para gerar riqueza  [12].

N�o ser� deslocado dizer que Jos� B. acalentava a princ�pio um projeto de imp�rio luso-brasileiro [13], conceito bic�falo que n�o encontrou solu��o; e considerava que cabia ao Estado dirigir o processo de forma��o da na��o [14], afirmando-se ainda que o Brasil fez-se Imp�rio antes mesmo de se fazer na��o [15].  As reformas propostas por Bonif�cio preconizavam o fim da escravid�o, as reformas agr�ria e educacional indispens�veis para a constru��o de um pa�s constitu�do por uma popula��o integrada [16], e pode dizer-se que eram muito avan�adas para a �poca: por exemplo, a aboli��o do tr�fico negreiro atl�ntico no imp�rio portugu�s s� come�ou realmente a partir da legisla��o proposta em 1850 pelo brasileiro nascido em Angola, senador Euz�bio Queiroz [17], quase trinta anos depois de Bonif�cio ser ministro. Ainda hoje, dois s�culos volvidos, t�picos v�rios das id�ias dele, na reforma agr�ria, na conserva��o das florestas, e outros, permanecem actuais.

A agenda pol�tica de Jos� Bonif�cio

A agenda pol�tica de Bonif�cio propunha a civiliza��o e integra��o dos ind�genas na sociedade, atrav�s da miscigena��o, da acultura��o e da reforma agr�ria, para a qual propunha incentivos precisos como doa��o de terras, e tamb�m pr�mios para os que dessem liberdade aos escravos e, no imediato, propunha a termina��o do tr�fico negreiro num caminho que visava a aboli��o progressiva da escravid�o. H� quem afirme que ele representou a lideran�a mais firme e l�cida no processo de independ�ncia [18].  Vejamos palavras de Jos� Bonif�cio:

Da escravid�o

A sociedade civil tem por base primeira a justi�a, e por fim principal a felicidade dos homens; mas que justi�a tem um homem para roubar a liberdade de outro homem, e o que � pior, dos filhos deste homem, e dos filhos destes filhos? Mas dir�o talvez que se favorecerdes a liberdade dos escravos ser� atacar a propriedade. N�o vos iludais, senhores, a propriedade foi sancionada para bem de todos, e qual � o bem que tira o escravo de perder todos os seus direitos naturais, e se tornar de pessoa a coisa, na frase dos jurisconsultos? N�o � pois o direito de propriedade que querem defender, � o direito da for�a, pois que o homem, n�o podendo ser coisa, n�o pode ser objecto de propriedade. Se a lei deve defender a propriedade, muito mais deve defender a liberdade pessoal dos homens, que n�o pode ser propriedade de ningu�m, sem atacar os direitos da provid�ncia, que fez os homens livres, e n�o escravos;

A perspectiva pragm�tica de Jos� Bonif�cio procurando mostrar a utilidade da empresa e assim cativar os opositores temb�m se entende no seguinte excerto:

Acabe-se pois de uma vez o infame tr�fico da escravatura africana; mas com isto n�o est� tudo feito; � tamb�m preciso cuidar seriamente em melhorar a sorte dos escravos existentes, e tais cuidados s�o j� um passo dado para a sua futura emancipa��o. (...) Torno a dizer por�m que eu n�o desejo ver abolida de repente a escravid�o; tal acontecimento traria consigo grandes males. Para emancipar escravos sem preju�zo da sociedade, cumpre faz�-los primeiramente dignos da liberdade: cumpre que sejamos for�ados pela raz�o e pela lei a convert�-los gradualmente de vis escravos em homens livres e ativos (...) Este � n�o s� o nosso dever mas o nosso maior interesse, porque s� ent�o conservando eles a esperan�a de virem a ser um dia nossos iguais em direitos, e come�ando a gozar desde j� da liberdade e nobreza de alma, que s� o v�cio � capaz de roubar-nos, eles nos servir�o com fidelidade e amor; de inimigos se tornar�o nossos amigos e clientes.

Os �ndios e a reforma agr�ria

A meu ver a perspectiva pol�tica geral, e operacional, do relacionamento com os �ndios e as terras e promo��o da miscigena��o e da acultura��o, articulada programaticamente, est� vis�vel nos dois pontos que se seguem:

4� Procurar com d�divas e admoesta��es fazer pazes com os �ndios inimigos, debaixo das condi��es seguintes, quais as que o governador Mem de S� estabeleceu em 1558. 1�) Que n�o comam carne humana nem mutilem os inimigos mortos; 2�) Que n�o fa�am guerra aos outros �ndios sem consentimento do governo brasileiro; 3�) que se estabele�a um governo, digno, um com�rcio rec�proco entre eles e n�s, para que comecem tamb�m a conhecer o meu e o teu, a-rogando-se o uso indistinto dos bens e produtos da sua pequena ind�stria.

5� Favorecer por todos os meios poss�veis os matrim�nios entre �ndios e brancos, e mulatos, que ent�o se dever�o estabelecer nas aldeias, havendo cuidado por�m de evitar que pelo seu trato e maus costumes n�o arru�nem os mesmos �ndios; proibindo-se que n�o possam por ora comprar suas terras de lavoura, sem o consentimento do p�roco e maioral da aldeia, e determinando-se que nos postos civis e militares da aldeia haja pelo menos igualdade entre ambas as ra�as.

Nota-se a no��o de processo articulado com os recursos naturais e as institui��es, jogando com paridades, bem como um conhecimento hist�rico das disposi��es anteriormente tomadas para contrariar abusos, referidas nesse excerto:

Desde d. Sebasti�o conheceram os reis de Portugal todas as injusti�as e horrores, que com eles praticavam os colonos, matando-os, cativando-os, e vendendo-os at� para mercados estrangeiros; e para favorecerem a liberdade, e porem termo �s injusti�as cometidas, legislaram em 1570, 1587, 1595, 1609, 1611, 1647, 1655, 1680, e finalmente em 1755. El-Rei d. Pedro pela lei de 1680 cortou pela raiz os quatro casos de que abusavam os colonos para continuar com a escravid�o dos �ndios, que ainda permitia a lei de 1655: a saber, que poderiam ser escravos: 1�) os tomados em justa guerra; 2�) quando impedissem a prega��o evang�lica; 3�) quando presos � corda para serem comidos pelos seus contr�rios; 4�) quando enfim fossem tomados em guerra pelos outros �ndios.

No enunciado que segue v�-se a prefer�ncia que Jos� Bonif�cio d� � pequena e m�dia propriedade rural, na estrutura fundi�ria e na sua articula��o com a gera��o de emprego e o com�rcio, conservando as antigas matas virgens, a que atribui um estatuto de heran�a sagrada.

� pois evidente que, se a agricultura se fizer com os bra�os livres dos pequenos propriet�rios, ou por jornaleiros, por necessidade e interesse ser�o aproveitadas essas terras, mormente nas vizinhan�as das grandes povoa��es, onde se acha sempre um mercado certo, pronto e proveitoso, e deste modo se conservar�o, como heran�a sagrada para nossa posteridade, as antigas matas virgens, que pela sua vastid�o e frondosidade caracterizam o nosso belo pa�s.

Das matas e das terras

Bonif�cio faz o elogio da natureza e das terras do Brasil num cen�rio a tender para o apocal�ptico da saariza��o, uma hip�rbole:

 A natureza fez tudo a nosso favor, n�s por�m pouco ou nada temos a favor da natureza. Nossas terras est�o ermas, e as poucas, que temos roteado, s�o mal cultivadas, porque o s�o por bra�os indolentes e for�ados; (...); nossas preciosas matas v�o desaparecendo, v�timas do fogo e do machado destruidor da ignor�ncia e do ego�smo; nossos montes e encostas v�o se escalvando diariamente, e com o andar do tempo faltar�o as chuvas fecundantes que favore�am a vegeta��o, e alimentem nossas fontes e rios, sem que o nosso belo Brasil em menos de dois s�culos ficar� reduzido aos p�ramos e desertos �ridos da L�bia.

Mas tamb�m reflecte sobre o assunto com um otimismo exultante:

Demais, uma vez que acabe o p�ssimo m�todo da lavoura de destruir matas e esterilizar terrenos em r�pida progress�o, e se forem introduzindo os melhoramentos da cultura europ�ia, decerto com poucos bra�os, a favor dos arados e outros instrumentos r�sticos, a agricultura ganhar� p�s diariamente, as fazendas ser�o est�veis, e o terreno, quanto mais trabalhado, mais f�rtil ficar�.

Discuss�o

A discuss�o que proponho permanece necessariamente em aberto, pois que eu pr�prio n�o organizei as cita��es de Jos� B. que transcrevi, em forma cronol�gica por exemplo. Obviamente que li os textos de onde as extra�, mas n�o esgotei o contexto.

No entanto desde j� avan�o que, na minha opini�o, Jos� Bonif�cio era um humanista convicto - um esp�rito penetrante embasado numa larga forma��o cient�fica e cl�ssica, e vasto treino em lugares de administra��o p�blica e pol�tica, de onde emergiu o pol�tico que tentou induzir os vetores de uma agenda civilizadora no Brasil, concebida nos moldes da �poca em que o despotismo esclarecido era tra�o consentido, ou at� enaltecido. A prova das suas convic��es � que foi banido e exilado por uma vez v�rios anos, e dois ou tr�s anos depois de regressar � preso domiciliarmente e julgado por conspira��o contra a ordem publica. Bonif�cio, na sua escrita intimista de desabafos no ex�lio e outros, n�o � nada meigo com as palavras, com os povos ou com poderosos, mas � sempre num horizonte de progresso convivial da condi��o humana que ele avan�a nos temas, n�o vejo como poder negar isso.

Sobre a perspectiva conservacionista refere-se que Bonif�cio olhava para os recursos naturais de modo a que pudessem ser explorados, mas n�o dizimados [19]. Bem, numa das transcri��es que coloquei acima ele lan�a o ep�teto de heran�a sagrada quando se refere �s matas virgens - � um termo muito forte que vai al�m do extrativismo, admite a coexist�ncia de uma outra ordem que n�o a profana. Porventura, usando o m�todo das regularidades, distinguia situa��es regulares de replica��o da paisagem numa l�gica de extrativismo, de outras, singulares, n�o enquadr�veis nas primeiras.

Jos� Bonif�cio era autor de obra cient�fica e t�cnica florestal em Portugal: em 1815 publica na Academia Real das Ci�ncias, em Lisboa, a Mem�ria sobre a necessidade e utilidades do plantio de novos bosques em Portugal, particularmente de pinhais nos areais de beira-mar; seu m�todo de sementeira, costeamento e administra��o, onde retoma um tema caro � nacionalidade pelo menos desde Dinis, o rei Povoador, e Poeta, tamb�m chamado o Pai da P�tria, por for�a de um reinado longo de mais de quarenta anos, casado com Isabel de Arag�o, a Rainha Santa, grande impulsionadora do culto de Esp�rito Santo, de origem franciscana [v. 20]

Existe not�cia de que j� em 1802, por recomenda��o de Bonif�cio, foram baixadas as primeiras instru��es para reflorestar a costa brasileira [21], e em 1822, a conselho de Jos� Bonif�cio, o Imperador extinguiu o sistema de sesmarias, deixando de prevalecer o prest�gio dos t�tulos de propriedade em favor da posse e ocupa��o das terras. Assim fica demonstrada a insist�ncia e prossecu��o na multiplicidade de dire��es que constituiam um feixe consequente de agenda pol�tica. O peso da atitude conservacionista nas l�gicas de produ��o � algo que � evidente, embora n�o consiga de momento estimar - nalguns escritos Bonif�cio parece referir-se � conserva��o expressa de uma sexta parte da �rea, mas por certo as matas virgens teriam um lugar separado nesta contabilidade, e existem escalas de refer�ncia onde se aplicam uns enunciados e n�o outros, tema a pesquisar. Existem m�todos que permitem perscrutar a rela��o entre valores e propor��es de ocorr�ncia, no tema das variedades de equil�brios de composi��o da paisagem, a prop�sito da no��o kanteana de valor contribuitivo [22], que talvez se apliquem no diagn�stico ou elucida��o do tema.

 

Agradecimento: a Rodrigo Azevedo, Professor da Unilab, que me acolheu durante mais de um m�s em Acarape, onde pude tomar contacto com a obra de Jos� Bonif�cio e conversar uns bons peda�os.

 
Refer�ncias:

[1] Jos� Bonif�cio de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil (textos reunidos e comentados por Miriam Dolhnikoff), S�o Paulo: Companhia das Letras; Publifolha, 2000.

[2] Perfil biogr�fico de Jos� Bonif�cio de Andrada e Silva, Wikipedia,

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Bonif%C3%A1cio_de_Andrada_e_Silva

[3] Perfil biogr�fico de Alexandre Rodrigues Ferreira, Wikipedia,

http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_Rodrigues_Ferreira

[4] Gra�a Louro, Maria do Loreto Monteiro, Lu�s Constantino, Margarida Tom� e Francisco Rego, 2011. Evolu��o do material lenhoso de pinheiro-bravo e eucalipto. Silva Lusitana 18(2): 133 – 149.

[5] Ant�nio Amorim da Costa, Domenico, (Domingos) Vandelli (1730-1816), s/ data, http://www.spq.pt/docs/Biografias/Domingos%20Vandelli%20port.pdf

[6] Jos� Augusto Mour�o e Jos� Pinto Casquilho, O desenho e a interpreta��o dos signos: o Parque Biol�gico de Gaia, Lisboa: RCL (2010) 41: 79-87.

[7] Lucia Santaella, Semi�tica Aplicada, S�o Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002.

[8] Jos� Augusto Mour�o, Signo, in Dicion�rio Cr�tico de Arte, Imagem, Lingugagem e Cultura, CECL&IGESPAR, 2010.

http://www.arte-coa.pt/index.php?Language=pt&Page=Saberes&SubPage=ComunicacaoELinguagemLinguagem&Slide=82

[9] Jos� Pinto Casquilho, A metamorfose das armas do rei de Portugal na dinastia de Avis, Monografias.com, 2008,

http://br.monografias.com/trabalhos913/metamorfose-dinastia-avis/metamorfose-dinastia-avis.shtml

[10] Jos� Pinto Casquilho, A hist�ria de um s�mbolo – o Espelho de Portugal. Monografias.com, 2008,

http://br.monografias.com/trabalhos913/simbolo-espelho-portugal/simbolo-espelho-portugal.shtml

[11] Jacques Fontanille e Claude Zilberberg, Tens�o e Significa��o, S�o Paulo: Discurso Editorial: Humanitas/ FFLCH/USP, 2001.

[12] Alex Gon�alves Varela in IHU online, Revista do Instituto Humanitas Unisinos, S�o Leopoldo, 03 de Setembro de 2007|edi��o 234, p: 30, 31.

[13] Miriam Dolhnikoff, in IHU online, Revista do Instituto Humanitas Unisinos, S�o Leopoldo, 03 de Setembro de 2007|edi��o 234, p: 20.

[14] M�rcia Miranda in IHU online, Revista do Instituto Humanitas Unisinos, S�o Leopoldo, 03 de Setembro de 2007|edi��o 234, p: 6.

[15] Ana Rosa Cloclet in IHU online, Revista do Instituto Humanitas Unisinos, S�o Leopoldo, 03 de Setembro de 2007|edi��o 234, p: 10.

[16] Maria Em�lia Prado in IHU online, Revista do Instituto Humanitas Unisinos, S�o Leopoldo, 03 de Setembro de 2007|edi��o 234, p: 34.

[17] Isabel Castro Henriques, A (falsa) passagem do escravo a ind�gena, in Crises em Portugal nos s�culos XIX e XX (coord: S�rgio Campos Matos), Centro de Hist�ria da Universidade de Lisboa, Cole��o Col�quia, Lisboa, 2002, p: 81-97.

[18] Cec�lia Helena L. de S. Oliveira in IHU online, Revista do Instituto Humanitas Unisinos, S�o Leopoldo, 03 de Setembro de 2007|edi��o 234, p: 37.

[19] Jos� de Castro Meira, Direito Ambiental, BDJur/STJ (biblioteca digital jur�dica),

http://bdjur.stj.gov.br/xmlui/bitstream/handle/2011/141/Direito_Ambiental.pdf?sequence=1

[20] Jos� Pinto Casquilho, Esteios da lusofonia - Do culto do Esp�rito Santo, Revista Triplov de Artes, Religi�es e Ci�ncias, Nova S�rie, n� 7, 2010,

http://www.triplov.pt/novaserie.revista/numero_07/jose_casquilho/index.html

[21] Jos� Murilo de Carvalho in IHU online, Revista do Instituto Humanitas Unisinos, S�o Leopoldo, 03 de Setembro de 2007|edi��o 234, p: 22.

[22] Jos� Pinto Casquilho, Composi��o do Mosaico de Paisagem e �ndice de Valor Contributivo M�dio. Silva Lus. 2010, vol.18, no.2, p.197-203. 

Jos� Pinto Casquilho. Centro de Ecologia Aplicada Baeta Neves (CEABN/UTL), Centro de Estudos de Comunica��o e Linguagens
josecasquilho@gmail.com
(CECL/UNL).