FLORIANO MARTINS
Foto: Ed Guimar�es...

O Surrealismo em Portugal

O di�logo que segue vem sendo preparado como parte integrante de um livro de Floriano Martins dedicado ao estudo do Surrealismo na Pen�nsula Ib�rica.

Aqui reproduzimos um fragmento de conversa que o poeta e ensa�sta brasileiro teve com dois importantes nomes ligados ao surrealismo portugu�s: o poeta, tradutor, ensa�sta e artista pl�stico Nicolau Sai�o (1946) e o poeta, ensa�sta e editor Antonio C�ndido Franco (1956).

 

Ant�nio C�ndido Franco

FLORIANO MARTINS | Simbolismo, Modernismo, Futurismo – com quais desses momentos melhor se identifica o Surrealismo em Portugal? O cr�tico brasileiro, de origem austr�aca, Otto Maria Carpeaux (1900-1978), em sua Hist�ria da literatura ocidental, aponta “a aus�ncia de um verdadeiro Simbolismo em Portugal”, ao mesmo tempo em que situa Mario de S�-Carneiro e Fernando Pessoa como “dois poetas de forma��o esteticista mas de ambi��es que j� antecipam o Surrealismo”. Por onde come�amos? Gostaria aqui de fazer men��o a um termo valioso do Ant�nio C�ndido Franco, o de “afinidade involunt�ria”.

ANTONIO C�NDIDO FRANCO | Quando lemos alguns dos poemas de Oaristos (1890), por exemplo o d�cimo primeiro, ou “A Epifania dos Licornes” de Horas (1891), ou ainda “Um Cacto no Polo” do mesmo livro, percebemos que a poesia de Eug�nio de Castro, um poeta hoje quase esquecido, mas que na �poca foi admirado por Ruben Dario e pelos simbolistas franceses, chega para impugnar a asser��o de Carpeaux (e, claro, para tirar muita novidade � poesia de Pessoa – que em alguns momentos se limita quase a glosar a poesia de Eug�nio de Castro).

Faltou-te por�m referir o Saudosismo, que � talvez a afinidade involunt�ria do Surrealismo portugu�s. O Saudosismo pode ser encarado como um desenvolvimento portugu�s do Simbolismo ou dos aspectos mais misteriosos dele. O poeta crucial deste movimento, Teixeira de Pascoaes, foi o antecedente po�tico de M�rio Cesariny; entre os poetas portugueses logo anteriores que ele tinha � disposi��o, e muitos eram (Antero, Gomes Leal, Junqueiro, Nobre, Eug�nio de Castro, �ngelo de Lima, Pessanha, Pessoa, S�-Carneiro, Florbela, Raul Leal, Almada, R�gio), foi Teixeira de Pascoaes que ele elegeu.

As rela��es entre o Saudosismo e o Surrealismo est�o infelizmente por estudar. O pr�prio Saudosismo, sobretudo na evolu��o da sua linha interna, aquela que vai por exemplo de 1912 a 1942, quer dizer, do momento do seu nascimento � publica��o dum livro t�o excepcional como Duplo Passeio, � muito mal conhecido e em geral tende a passar despercebido (como a tua pergunta confirma).

NICOLAU SAI�O | O n� do problema creio que assenta nas condi��es de antidemocracia que sempre – sublinho, sempre) – existiram em Portugal, n�o s� propiciadas por uma classe dominante extremamente c�nica e autorit�ria mas, ainda, pelo seu tipo de cultura primarizada e pela sua mentalidade inculta, plebeia no sentido exato e o seu reacionarismo incrementado e sustentado por um tipo de fide�smo profundamente limitado e preconceituoso que tentava eliminar, espingardear ou suster tudo o que lhe cheirasse a modernidade ou trouxesse o selo de algo menos academizado. Sempre dominaram os estabelecimentos de ensino a alto n�vel, que em Portugal s�o os �rg�os que controlam apertadamente os sectores intelectuais que fazem entre n�s a chuva e o bom tempo por raz�es �bvias. Era assim dantes e continua a ser assim hoje. Da� que as afinidades entre os autores/criadores tenham de ser involunt�rias ou, dizendo de outra maneira, conforme se pode…

Isso faz com que, ainda neste tempo em que vivemos, ou sobrevivemos, a arte moderna em geral e o surrealismo em especial sejam olhados como excresc�ncias carnosas, produtos de quase marginais, de gente que n�o se deve deixar entrar, preferentemente, nos sal�es onde os donos da sociedade exercem a sua m�sica e a sua dan�a contra tudo o que � leg�timo em vida s�.

Portugal segue sendo um entreposto claramente de signo cripto-fascista, mau grado a maquiagem arranjada nos primeiros tempos a seguir ao 25 de Abril – maquiagem essa que, por j� n�o lhes fazer falta, t�m estado a abandonar com decis�o. S� t�m algum respeito pela chamada arte moderna em sentido lato porque esta, nos lugares onde o ambiente � mais salubre, vale muito dinheiro! S�- Carneiro e Fernando Pessoa, como se sabe, foram sempre corpos estranhos no tempo em que estavam inseridos. E o panorama continua a ser assim… exceto se o autor/artista se alcandorou por companheirismos ou afei��es, geralmente, aos lugares de topo da “�rvore dos n�veis”…

FM | O que evidencia a revolu��o surrealista em Portugal e como ela se insere em um mapa da Pen�nsula Ib�rica? Penso aqui nas rela��es entre Cesariny e Bu�uel, que bem poderiam ter sido ampliadas, considerando afinidades hist�ricas. Cesariny chega a comentar tangencialmente acerca de Juan Larrea, J. V. Foix, Jos� Mar�a de Hinojosa… Por�m nunca houve entendimento entre as duas vertentes surrealistas. Algum motivo determinante?

ACF | O choque do surrealismo em Espanha e em autores de l�ngua espanhola (como Cesar Moro) foi tempor�o. Basta pensar na import�ncia que Bu�uel e Dali t�m nos primeiros anos de afirma��o do Surrealismo franc�s. Nada de parecido aconteceu em Portugal ou em criadores da l�ngua portuguesa, e isto mau grado P�ret ter passado quase dois anos no Sul do Brasil nos anos heroicos que se seguiram � cria��o do Surrealismo. Logo o destino dos dois movimentos foi distinto e raras vezes coincidente. Ainda assim M�rio Cesariny, al�m de traduzir Bu�uel e ter rela��es pr�ximas no seu c�rculo, penso em Jos� Francisco Aranda, teve uma afinidade expressa e um conv�vio intenso com Eugenio Granell, o grande criador catal�o, que viveu exilado muitos anos em Nova Iorque. O mesmo se passou com Cruzeiro Seixas.

NS | O que a revolu��o surrealista, encarada a n�vel europeu ou mesmo ib�rico, evidencia, � a meu ver as enormes dificuldades de se existir autonomamente, livremente. O poder pol�tico-social, precisamente pelas raz�es hist�ricas nos dois pa�ses, tentou sempre impedir que f�sse f�cil existirem rela��es entre os criadores daqui e dali. Por isso o cardo foi sempre enorme, parafraseando uma express�o de Cesariny…

FM | As cartas de Ant�nio Maria Lisboa constituem uma fonte de ilumina��o sobre in�meros aspectos referentes ao Surrealismo em Portugal. Poucos anos antes de sua morte, j� descrente da perspectiva de reestrutura��o grupal do movimento, lemos em uma carta destinada a Cesariny ali imprimir seu desejo de ver seus amigos uma vez mais a seu lado, “desta vez n�o com a sombra de um Breton”. E em uma de suas �ltimas cartas, j� no Sanat�rio da Quinta dos Vales Cov�es, em Coimbra, 1952, comenta com M�rio Henrique Leiria acerca de uma “fundamental dificuldade” dos surrealistas: “sair da f�cil express�o, do h�bito a que dialeticamente se deram e onde anti-dialeticamente permanecem”, finalizando: “Breton ser� mil vezes culpado”. At� onde acerta Ant�nio Maria Lisboa, n�o propriamente acerca de uma culpa de Breton, mas antes de uma falta de identidade no tocante ao Surrealismo em Portugal?

ACF | � natural que um poeta com a dimens�o invulgar dum Ant�nio Maria Lisboa se quisesse autonomizar de Breton, isto depois de o procurar e de com ele ter aprendido muito ou mesmo tudo. Caso tivesse sobrevivido � doen�a que o levou em 1953, aos 25 anos, conven�o-me que n�o teria tido qualquer quest�o em se associar ao folheto com que o grupo de Cesariny homenageou A. Breton, no momento da morte deste, em 1966. O texto, chamado (Ne�fito) N�o h� morte na morte de Andr� Breton, est� hoje recolhido no livro As m�os na �gua a cabe�a no mar (1985). S� um movimento consciente de si, atento �s suas infinitas possibilidades, muito rodado na estrada do mist�rio e do amor, podia produzir t�o altiva e bela homenagem.

NS | A culpa de Breton, digamos assim simbolicamente, assentou no fato de que ele vivia numa Fran�a aberta e os surrealistas portugueses, ou que tentavam s�-lo, viviam num Portugal do antigo regime, ultraconservador e muitas vezes ultramontano. Em Fran�a era-se hostilizado pela mentalidade academicista da classe dominante, mas em Portugal ia-se parar diretamente, sem paninhos quentes, � pris�o, � mis�ria econ�mica e � marginaliza��o pura e simples. O que agravava as diverg�ncias, as questi�nculas e os destrambelhamentos at�, dos autores portugueses, meros sobreviventes de uma na��o dominada por gente nefanda.

FM | H� um coment�rio de Adolfo Casais Monteiro ⎼ A palavra essencial, 1972 ⎼ sobre composi��o e espontaneidade em que recorda que, “tal como em toda a literatura, tamb�m nas cria��es surrealistas havia uma diferen�a abissal entre a poesia espont�nea de uns e a espont�nea… vacuidade dos restantes”. Como lidou o Surrealismo em Portugal com essa aparente ambiguidade?

ACF | Ao contr�rio do que pensava Casais Monteiro, o Surrealismo n�o era uma quest�o de talento. O terreno matricial do Surrealismo n�o � o da est�tica (liter�ria ou art�stica) mas o da �tica humana, que procura conciliar a liberdade explosiva das puls�es interiores com a ordem cl�ssica e exterior da sociedade. Pode-se ser surrealista sem se ter escrito uma �nica linha; pode-se ser surrealista sem se ter pegado uma �nica vez num pincel; pode-se passar de todo ao lado do Surrealismo depois de se terem escrito muitos poemas ou pintado muitas telas “surrealistas”. A “vacuidade”, para quem se situa no plano da aventura interior, como sucede com o Surrealismo, s� pode ser a dos “artistas”. Tamb�m houve destes em Portugal, e de peso, a come�ar por Ant�nio Pedro e a acabar em Jos�-Augusto Fran�a, passando ainda por Jorge de Sena. Trataram o Surrealismo como uma quest�o de ter ou n�o ter “jeitinho”. Passaram assim ao lado do que mais importa.

NS | Lidou mal, necessariamente. E o contr�rio � que seria estranho. Um surrealista autentico, em Portugal, vive ainda hoje, como vivia dantes, sob a f�rula de poetinhas que promovem, controlam, selecionam e acatitam muit�ssimas vezes ilustres mediocratas que exibem como gente de grande gabarito.

N�o � pois uma ambiguidade, mas uma consequ�ncia de Portugal ter sempre vivido no dom�nio apertado de aparelhagens de exterm�nio moral que epigrafa os “surrealistas” que lhes conv�m epigrafar. Liofilizados ou amansados. Objetos de literatura no pior sentido do termo. E quem se rebela… fica frito por esses cozinheiros de m�s iguarias.

 
Nicolau Sai�o  

FM | Seria poss�vel imaginar um Surrealismo outro em Portugal sem a figura tutelar de M�rio Cesariny de Vasconcelos?

ACF | Sem Cesariny, o Surrealismo portugu�s ainda seria o mesmo, se o Ant�nio Maria Lisboa que tivemos ainda tivesse podido, sem ele, Cesariny, ser o que foi (at� no di�logo com Pedro Oom), o que se duvida, pois cada um deles foi uma parte do outro e n�o podia porventura ser o que foi sem ela. Sem Cesariny e sem Lisboa, o Surrealismo portugu�s teria sido por�m “outro”, muito menos aut�ntico e muito mais est�tico. O que se perdia em aventura e exalta��o ganhava-se em truque e habilidade. A poesia, que no Surrealismo portugu�s se elevou altura �mpar, digna da mais alta aventura humana, teria deca�do em simples literatura descart�vel.

NS | A realidade � que foi como foi. Cesariny, da maneira que p�de ou lhe consentiram, foi um resistente. Bem, mal, assim-assim? Sei das dificuldades que teve, que muitas vezes lhe criaram, j� pela hostilidade j�, depois, por o querem jungir a um surrealismo que, se fosse como eles determinavam, seria ent�o credor de aplausos e de carinhos…duvidosos. Acresce que Cesariny tinha uma orienta��o sexual que essa gente tentava fosse a marca da sua totalidade enquanto ser humano/autor. O truque infame � bem conhecido…numa sociedade fide�sta e, mais que isso, que se serve do fide�smo, tal qual se serve doutras afins, como arma de repress�o e opress�o.

FM | Quais rela��es podemos encontrar entre Surrealismo e o happening, como j� o propusera Ernesto de Sousa em 1969, ao reunir poemas de Almada Negreiros, M�rio Cesariny, Herberto Helder e Luiza Neto Jorge? E quais desdobramentos relevantes podemos comentar?

ACF | Se o happening se situar apenas no dom�nio da arte multim�dia, ou mesmo da poesia dita liter�ria, consagrada pela Hist�ria da Literatura, n�o me parece que tenha alguma coisa a ver com Surrealismo. Se entrar pelo campo magn�tico da expans�o de fen�menos ps�quicos desconhecidos a� o contacto estabelece-se. O teatro ritual�stico e m�gico de Judith Malina e de Julian Beck parece-me modelar de como o happening, pondo a nu a alma, se pode tornar uma forma de viver em colectivo o Surrealismo.

NS | N�o o sei exatamente. S� sei que Cesariny, por v�rias vezes, me referiu que em Portugal o fen�meno happening corria o risco de acabar por ser uma coisa em estilo Parque Mayer. O que eu pude observar deixou-me muitas vezes com a sensa��o de que ele, que era um fino observador, percebera que numa sociedade como a nossa se corria sempre o risco de se mergulhar num “melting pot” transversalmente atravessado por um ar eventualmente percorrido por fumos e odores nada salubres.

FM | O que o tema Surrealismo significa hoje em Portugal?

ACF | Para uns significa cria��o est�tica e est� por isso confinado a um per�odo limitado que vai da d�cada de 40 � d�cada seguinte (e pouco mais); para outros significa uma porta aberta, que nunca mais se fechou, para metamorfosear o mundo e conhecer sem limites o interior do homem.

NS | Algo que foi e continua a ser, da parte dos seus criadores sem ja�a, qualquer coisa de muito luminoso, mau-grado as sombras que lhe tentaram sempre criar na figura. Da parte dos observadores que estabelecem os seus figurinos e as suas indument�rias para o baile social, algo que conviria desaparecesse o mais depressa poss�vel. Apesar de o surrealismo praticamente n�o contar para nada socialmente, neste pa�s, se pudesse ser exterminado deixaria muit�ssimo mais felizes os que sentem no sapatinho essa pedra inc�moda.

in Revista MUSA RARA, S�o Paulo – Brasil . director EDSON CRUZ

Floriano Martins (Fortaleza, 1957)
Poeta, ensa�sta, tradutor, editor e artista pl�stico. Participou das seguintes mostras coletivas:
“O surrealismo” (Escrit�rio de Arte Renato Magalh�es Gouv�a, S�o Paulo, 1992), “Lateinamerika und der Surrealismus” (Museo Bochum, K�ln, 1993), “Collage - A revela��o da imagem” (Espa�o expositivo Maria Ant�nia/USP, S�o Paulo, 1996), e “I Muestra Internacional de Poes�a Visual y Experimental” (Escuela de Artes Pl�sticas Armando Rever�n, Caracas, 2009). Em 2005, participou como “artista convidado” da edi��o # 17 da Agulha – Revista de Cultura, com uma mostra de 50 colagens. Assina diversas capas de livros seus e de outros autores. Em maio de 2000 realizou o espet�culo Altares do Caos (leitura dram�tica acompanhada de m�sica e dan�a), no Museu de Arte Contempor�nea do Panam�. Um ano antes tamb�m havia realizado uma leitura dram�tica de William Burroughs: a montagem (colagem de textos com m�sica incidental), na Biblioteca M�rio de Andrade, em S�o Paulo. Em 2006, a mostra Teatro Imposs�vel, reuniu leitura de poemas, can��es, colagens e fotografias (Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza). Espet�culo similar realizou em 2009, durante o Festival Internacional da Cultura (Colombia). Esteve presente em festivais de poesia em pa�ses como Chile, Col�mbia, Costa Rica, Rep�blica Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, M�xico, Nicar�gua, Panam�, Portugal e Venezuela. Coordena a cole��o “Ponte Velha”, de autores portugueses, da Escrituras Editora. Em 2009, publicou os seguintes livros: A alma desfeita em corpo (poemas, Lisboa), Fuego en las cartas (antologia po�tica, Espanha), A inoc�ncia de Pensar (ensaios, Brasil) e Escritura conquistada. Conversaciones con poetas de Latinoam�rica. 2 tomos (entrevistas, Venezuela).

CONTATO: floriano.agulha@gmail.com

 

 

 




 




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